A Casa da Mulher do Nordeste inicia os trabalhos na retomada do Programa Cisternas

A mais recente ação foi o encerramento da capacitação de cisterneiras e cisterneiros no Sertão do Pajeú

Por Ana Roberta Amorim, da Casa da Mulher do Nordeste

Entre os dias 22 e 25 de janeiro, dez pessoas – entre elas, oito mulheres -, participaram da Capacitação de Pedreiras e Pedreiros em Construção de Cisternas, promovida pela Casa da Mulher do Nordeste, por meio do Programa Um Milhão de Cisternas, do Governo Federal.

Essa é uma das ações iniciais de retomada do Programa Cisternas, após os últimos anos de desmonte e desvalorização da iniciativa, que registraram números drasticamente menores de tecnologias construídas no semiárido brasileiro do que quando o projeto foi lançado, há duas décadas.

Agora, com a volta de investimentos no programa, diversas organizações, entre elas a CMN, iniciam os trabalhos para que, até o final de 2024, 61 mil cisternas para consumo e produção sejam entregues às famílias na região do Semiárido Brasileiro.

Capacitação de Pedreiras e Pedreiros

A capacitação durou quatro dias e aconteceu no Sítio Cabrito, município de Ingazeira, no Sertão do Pajeú-PE. O objetivo principal era de possibilitar que, ao final, as mulheres e homens participantes pudessem atuar como cisterneiras e cisterneiros nessa região. Ou seja, que tivessem autonomia para gerar renda a partir dos conhecimentos adquiridos e dos materiais recebidos durante a formação.

Por meio da teoria e da prática, as pessoas envolvidas tiveram a oportunidade de aprender os detalhes sobre manejo e ferramentas necessárias para a construção de cisternas, desde a confecção das placas até o acabamento da tecnologia, compreendendo como se dá a captação da água no telhado até a instalação da bica e do cano que conduz o líquido para ser armazenado.

O tipo de cisterna construído pela turma (e que será o entregue pelo Programa às famílias selecionadas) foi o de 16 mil litros, que carrega o necessário para o consumo de uma casa que tenha entre 4 e 5 pessoas durante um ano, para beber e cozinhar.

A mobilização para a formação da turma começou ainda em dezembro de 2023, quando a CMN buscou nos municípios que já atua as mulheres interessadas em se formar como pedreiras de cisternas. Elas vieram, em sua maioria, dos municípios de Ingazeira e Tuparetama.

Uma delas é Maria Suely Carvalho, do município de Ingazeira.

“Eu não conhecia nada de construção de cisternas, somente quando foi feita a que tenho na minha casa. Quis fazer o curso porque gosto de coisas de construção, só estava esperando a oportunidade para fazer a capacitação. Foi crucial principalmente para mim como mulher e como presidenta de uma associação conseguir levar mais quatro mulheres para participar”, conta Suely, que é presidenta da Associação Comunitária das Mulheres do Bom Sucesso. “O que eu mais gostei, além da companhia das minhas companheiras e guerreiras, foi participar de todo o processo: desde a construção das placas até a cisterna finalizada. Para o futuro, pretendo experimentar fazer uma cisterna com mais duas companheiras, se tivermos a oportunidade, para mostrar que somos capazes de construir cisternas, fogões agroecológicos e até uma casa. Que a mulher é empoderada e vai muito longe”, projeta.

Durante a formação, as participantes receberam apostila com o passo a passo para a construção de cisternas e um kit de trabalho que inclui fôrmas para confecção de placas, colheres, nível, prumo, entre outros. Também ganharam um certificado de 48h aula. A partir disso, todas estão habilitadas para construir cisternas não somente como parte do Programa, mas de maneira autônoma, gerando renda para si e para suas famílias.

Retomada

Iniciado em 2003, durante o primeiro mandato do presidente Lula, o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) sofreu um desmonte sistemático nos últimos anos, em especial entre 2020 e 2022, quando somente 18.561 tecnologias foram entregues às famílias nos três anos, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).

Com a volta do governo que olha para a política da universalização da água no Brasil, o Programa teve uma retomada com altos investimentos não somente para o semiárido nordestino, mas também para a região Norte. De acordo com o MDS, serão investidos R$ 562 milhões na construção de cisternas de consumo, de produção de alimentos e para contratação de sistemas individuais e comunitários de acesso à água na Amazônia, que beneficiarão 60 mil famílias no total.

A Casa da Mulher do Nordeste é integrantes da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), rede da sociedade civil responsável pela articulação do Programa na região, e atua como uma das Unidades Gestoras do Programa Um Milhão de Cisternas Rurais em Pernambuco, com foco no Sertão do Pajeú, nos municípios de Afogados da Ingazeira, Ingazeira e São José do Egito.

Segundo a ASA, a partir do acordo feito com a Fundação Banco do Brasil, BNDES e Associação Programa Um Milhão de Cisternas (AP1MC) – braço jurídico da articulação para a execução de projetos – serão instaladas 5 mil tecnologias em toda a região, com um investimento total de R$ 40 milhões.

Antes da capacitação de cisterneiras e cisterneiros, a CMN realizou, primeiramente, a articulação nos três municípios citados para renovar a comissão municipal da ASA; depois, houve a capacitação das comissões municipais, com a apresentação do projeto e dos critérios de seleção. Em seguida, ocorreu a mobilização das famílias nos municípios – até o final de janeiro, já tinham selecionadas 160 famílias (apenas no município de Ingazeira) que irão receber as cisternas de 16 mil litros. Entre os critérios de seleção, estão, prioritariamente, ser residente da zona rural do município e sem acesso à água. E, por ordem: família em situação de extrema pobreza; que recebe Bolsa Família; chefiada por mulheres; com maior número de crianças de 0 a 6 anos; com maior número de crianças em idade escolar; com pessoas portadoras de necessidades especiais; e chefiadas por idosos.

A meta é que, ao término dos 11 meses de Programa, 583 famílias recebam uma cisterna de 16 mil litros de capacidade construídas pela Casa da Mulher do Nordeste.

“Considero essa retomada do Programa Cisternas como uma conquista de lutas seguidas de todas as organizações que compõem a Articulação Semiárido Brasileiro. Conquistas estas que serão celebradas por nós e pelas famílias que serão beneficiadas e terão acesso a água de qualidade para consumo humano”, comemora a coordenadora do Programa Um Milhão de Cisternas pela Casa da Mulher do Nordeste, Claudineide de Oliveira. “Teremos a oportunidade, através dos processos formativos, de dar visibilidade ao conhecimento e trabalho das mulheres como na capacitação de pedreiras, espaço onde elas tiveram a oportunidade de mostrar os seus potenciais, de discutirmos as relações de gênero, divisão justa do trabalho doméstico e violência contra as mulheres” finaliza.

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A cisterna de 16 mil litros, voltada para consumo humano (cozinhar e beber), capta a água da chuva pelo telhado, por onde ela escorre pela calha até cair na cisterna. Na segunda etapa, a água fica armazenada, sem sofrer contaminações(potável) e pode ser consumida pela família, entre 4 e 5 pessoas, por até um ano.

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