Quem nunca ficou sem água não consegue compreender plenamente a falta que ela faz. A expressão popular “quem guarda, tem”, que há séculos circula na língua portuguesa, ganha um significado ainda mais profundo para as famílias de agricultoras e agricultores do sertão do Pajeú.
Para a sertaneja e o sertanejo, planejar o futuro não se resume a questões financeiras; pensar no amanhã significa, essencialmente, garantir o acesso ao bem mais precioso que temos: a água. E, para isso, uma das tecnologias mais transformadoras da história da humanidade precisa estar presente em seus terrenos.
Desde a antiguidade, as cisternas foram fundamentais para a sobrevivência de civilizações em regiões áridas. Povos como os Nabateus, na atual Jordânia, e os romanos desenvolveram sistemas sofisticados para captar e armazenar a água da chuva, garantindo o abastecimento em tempos de seca. No Brasil, essa tecnologia adaptou-se ao semiárido nordestino, tornando-se um símbolo de resistência e autonomia para milhares de famílias.
Mais do que um simples reservatório, a cisterna representa segurança hídrica, autonomia e dignidade. No sertão do Pajeú, onde a chuva é escassa e irregular, a presença desse reservatório pode significar a diferença entre a escassez e a subsistência, entre a dependência e a liberdade.
Assim como as cisternas, a convivência com o semiárido é um dos pilares para a construção de uma vida digna nesses territórios. Nos últimos anos, tem se consolidado um maior entendimento sobre a necessidade de viver em harmonia com o bioma da Caatinga, desenvolvendo não apenas mecanismos como as cisternas, mas também tecnologias como os fogões agroecológicos e ações dentro das associações onde se preserva a importância da escuta, da mobilização interna e da organização sociopolítica, permitindo que as famílias rurais exponham e discutam as suas necessidades, podendo tomar decisões coletivas e se organizar para enfrentar crises de maneira mais estruturada e resiliente.
O fogão agroecológico é uma inovação que auxilia na redução do desmatamento da Caatinga, além de estimular o debate sobre a repartição das tarefas domésticas dentro das famílias. Essa solução foi desenvolvida com base nas necessidades e no cotidiano das mulheres em suas atividades agroecológicas, nos quintais produtivos e na adaptação ao semiárido. Atualmente, o fogão agroecológico possui certificação da Fundação Banco do Brasil como uma prática sustentável passível de reprodução em diferentes comunidades.
Sem precisar de lenha, os fogões eliminam a necessidade de desmatamento, contribuindo para a preservação do território. Eles funcionam com pequenos galhos e gravetos, que podem ser coletados sem comprometer a vegetação nativa. As famílias vão economizar no gás ou até deixar de consumi-lo, com essa tecnologia é possível fazer tudo, bolos, galinhas e realizar refeições do dia a dia de uma forma prática e mais sustentável.
Maria Joselma de Vasconcelos Leite presidenta da Associação Comunitária Rural de Fortuna, no município de São José do Egito, falou sobre o projeto Famílias Agricultoras Semeando Agroecologicamente na Paisagem do Pajeú que faz parte do projeto Caatinga Viva, no qual a Casa da Mulher do Nordeste atua como organização estratégica no território do Pajeú. A iniciativa foi selecionada no 35º edital do Fundo Ecos do ISPN, com foco na Caatinga, e conta com apoio financeiro do GEF (Small Grants Programme) e apoio institucional do PNUD Brasil.
Essas tecnologias sociais, como a cisterna e o fogão agroecológico estão ganhando mais espaços com o Projeto. No total, a ação beneficiará diretamente 60 famílias e, indiretamente, outras 30. O impacto se dará por meio de diferentes frentes, como o fortalecimento dos quintais produtivos, a melhoria da estrutura da associação, a oferta de assessoria técnica e o monitoramento da caderneta ecológica. O projeto prevê também a construção de fogões agroecológicos e cisternas, garantindo melhores condições de vida para as famílias envolvidas.
Serão construídas duas cisternas no território: uma para uma família de agricultores e outra para a associação, que beneficiará todas as pessoas que fazem parte do coletivo. Joselma destacou as mudanças que esse recurso trará para as família e as mulheres: “Essas famílias terão um armazenamento adequado de água, garantindo qualidade para o consumo e para cozinhar. A qualidade de vida delas vai melhorar significativamente, saindo daquela realidade de carregar água na cabeça. Eu acredito que isso vai impactar em, digamos, 90% da vida dessas famílias.”
Cicera Marina de Sousa Silva, agricultora e membra da Associação Comunitária Rural de Fortuna, já recebeu a sua cisterna, e comentou sobre a alegria e o poder de transformar vidas do equipamento contruido recentemente em sua casa ;” Eu sei que mudou muita coisa porque aqui, é falta d’água. Eu gosto de plantar minhas coisas, para eu ter as minhas coisas em casa. Para mim e para os outro também. Eu fiquei muito satisfeita, porque hoje vai dar para eu plantar minhas coisinha e guardar água pra mim beber”
Além das cisternas, o projeto também incluirá a construção de fogões agroecológicos e ações para o fortalecimento dos quintais produtivos e da associação, com a aquisição de notebooks, mesas e ventiladores.
As expectativas em relação à realização do projeto têm sido carregadas de entusiasmo, especialmente para as mulheres da região, que costumam percorrer longas distâncias para buscar água em territórios vizinhos.
Joselma fala sobre essa realidade: “A gratidão no olhar logo no início, quando a gente começou a entregar os materiais, a felicidade de receber essas tecnologias. É um sonho a ser realizado. Eu acho que vai melhorar, se não, tenho certeza que vai melhorar a vida, de todas nós, mulheres, porque somos nós quem vai buscar a água para trazer para dentro de casa, para cozinhar, para aguar uma hortinha. O fogão agroecológico que também vamos construir pelo projeto do Fundo Ecos, vai ajudar as mulheres a não desmatar, e usar menos lenha. E diminuir a sobrecarga de trabalho dessas mulheres.”
Convivência com o Semiárido: como as cisternas e fogões agroecológicos estão mudando o sertão

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