Pernambuco sedia Encontro de Sementes da Partilha, em Serra Talhada.

                                                                  *Foto de Emanuela Castro, da Casa da Mulher do Nordeste

“As Casas de Sementes prestigia você a guardar as sementes, a não deixar faltar na mesa da família do trabalhador e trabalhadora, agricultor e da agricultora, essa semente que é tão rica em proteínas, como feijão e milho, e que a gente mais produz e mais consume”, alertou Arlesia Alves, da comunidade de Serra da Baixa, Sertão do Araripe, sobre a importância desses espaços e da responsabilidade das agricultoras e agricultores como guardiões da biodiversidade. Esses conhecimentos e saberes do campo foram compartilhados durante o III Encontro Estadual de Sementes da Partilha, realizado nos dias 29 e 30 de maio, em Serra Talhada/PE, com a organização da Casa da Mulher do Nordeste, e parceiros da ASA-PE, como a ADESSU Baixa Verde, Chapada, Caatinga, Cecor e Centro Sabiá.
O Encontro marcou a culminância das ações do Programa Sementes do Semiárido em Pernambuco, da Articulação do Semiárido Brasileiro, executado pela Casa da Mulher do Nordeste. A programação contou com mesas de diálogo, intercâmbio e feira de trocas de sementes e saberes. “Reafirma os avanços na importância desse projeto para visibilizar as Casas de sementes construídas nesse projeto que garantia a existência concreta de sua gestão. E agora fica o desafio de como continuamos essa luta para fortalecer essas Casas e ampliar a produção das sementes em sua diversidade”, afirmou Graciete Santos, presidenta da Casa da Mulher do Nordeste e membro da coordenação executiva da ASA-PE. No primeiro dia do evento, os agricultores e as agricultoras conheceram as experiências de gestão de Casas de Sementes no Estado. A exemplo do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), da comunidade quilombola de Mirandiba, da experiência no Sertão do Pajeú e também da Rede SEMEAM, do Agreste. “Sementes que trazem a história de cada pessoa, de cada família, de cada quilombola, que guardou na sua memória histórica por centenas de anos. Momento rico a resgatar a história de nosso povo”, relatou João Alfredo, da comunidade quilombola de Conceição das Crioulas, de Salgueiro. Outro debate importante realizado foi sobre o enfrentamento às sementes transgênicas nos territórios. Um diálogo compartilhado entre os guardiãs e guardiões de sementes com Maitê Maronhas, engenheira agrícola e ambiental, sobre as formas de prevenção e os desafios na luta contra a transgenia. Um dos desafios apontados é o monitoramento das sementes, que depende de testes caros para evitar que os Bancos recebam sementes modificadas.
A discussão que permeou todo o Encontro foi sobre o acesso a água e os direitos das mulheres. Como mais de 60% era agricultora, questões que envolvem a vida das mulheres no campo, e sua gestão e guardiãs das sementes trouxe a necessidade das mulheres ocuparem espaços de decisão. O que também foi dito é que ainda há casos de violência no campo, e que vivem situações de desigualdades nas famílias e nas associações.No segundo dia, as agricultoras e agricultores fizeram um diálogo sobre Políticas de Sementes Crioulas em Pernambuco com representantes do governo e do poder legislativo. Durante a manhã, foi apresentado a experiência do Polo Sindical da Borborema/Paraíba, que tem avançado na discussão de uma Política Estadual de Sementes Crioulas, como também no fortalecimento da auto-organização dos agricultores e agricultoras. Roselita Victor, Coordenadora do Polo Sindical da Borborema/PB, relatou que trabalha em diversas frentes e estratégias, como: formação, experimentação, articulação em Redes e construção de Políticas públicas. “tem aprimorado os espaços, as formas de armazenamento, de seleção, de equipamentos, para que possam armazenar de forma mais eficaz.”, completou.
Em seguida, compôs a mesa o Diretor de Extensão Rural do IPA, Reginaldo Alves, que apresentou o fluxo de trabalho do Programa de Sementes que está se reestruturando. “Precisamos dialogar para traçar estratégias de como ter um Programa para o fortalecimento dos Bancos de Sementes, e incorporar as sementes crioulas. Além de ter uma ação de distribuição que é uma de suas funções, ter uma ação com autonomia das comunidades na gestão de suas sementes”, disse.
A mesa contou também com a presença de André Santos, assessor do Deputado Estadual – PT, Doriel Barros, que se comprometeu em apresentar ao Deputado a proposta de uma audiência pública sobre as Sementes Crioulas, e colocou o interesse do Deputado de construir esse diálogo. A ASA também tem provocado a importância de fortalecer os campos de multiplicação para que se possa garantir a vida dos Bancos. “Precisamos construir esse momento de diálogo, junto com a ASA e outros parceiros dos Movimentos do Campo, para construir essa Política de Sementes Crioulas, que no momento o Estado só conta com um Programa de Sementes. Precisamos também fazer um trabalho de sensibilização e mostrar que as sementes crioulas são produtivas e aptas ao mercado, e que o Estado precisa incorporar a compra dessas sementes na sua política”, pontuou Graciete Santos.
O Encontro pontuou como desafios: a continuidade do monitoramento da Transgenia e a construção de uma Política Estadual de Sementes Crioulas. Os agricultores e as agricultoras também assumiram o compromisso de participar da escuta que o governo irá realizar nos territórios sobre o Plano Plurianual, previsto para julho.

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