Grupo Espaço Mulher completa 20 anos de luta comunitária em Passarinho

Grupo Espaço Mulher na leitura da Carta Política durante o Ocupe Passarinho.

Quem vê a mobilização do Ocupe Passarinho, não imagina a luta que foi para as mulheres do bairro se reafirmarem como protagonistas na luta por melhores condições de vida na comunidade. Entre as lideranças, está o Grupo Espaço Mulher, que no ano de 1999 deu início ao seu trabalho na comunidade., a partir de conversas entre mulheres que se conheceram dentro de uma kombi, a caminho do trabalho. As “kombeiras”, como passaram a se chamar, eram trabalhadoras domésticas que tinham muita dificuldade para se deslocar até os bairros da Zona Norte do Recife, onde iriam cumprir o expediente. Foi neste momento de convivência que elas reforçaram os laços, as afinidades, as amizades e construíram a articulação para lutar por melhorias no bairro.


Hoje essa articulação completa 20 anos de resistência no bairro de Passarinho. “Pra gente, esse trabalho de formiguinha dá resultado. Desde 1999 que a gente faz esse trabalho na comunidade, e cada vez mais fortalece as mulheres. E esperamos continuar fazendo mobilização para sermos mais ouvidas pela gestão. Nosso papel é denunciar a falta de políticas públicas na comunidade”, conta Edcléa Santos, coordenadora do Grupo Espaço Mulher. E nos encontros com outros movimentos, que o feminismo tornou-se peça central das discussões no grupo. A chegada de organizações como a Casa da Mulher do Nordeste, o Grupo de Mulheres Cidadania Feminina, o Fórum de Mulheres de Pernambuco, SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, a ActionAid, entre outras; reforçaram a troca e a parceria sobre o que é ser mulher na periferia. “Antigamente não havia um olhar político para a comunidade, e hoje tratamos as mulheres como sujeitos políticos. Hoje sabemos que a Escola, a creche, o direito à cidade, é uma reivindicação válida e que temos que fazer para nosso bem viver.”, disse Edcléa. Para Itanacy de Oliveira, da Casa da Mulher do Nordeste, o Espaço é um grupo importante para a organização comunitária de Passarinho e no enfrentamento ao racismo. “A resistência do Espaço com o recorte do direito à cidade e a mulher negra periférica tem visibilizado as demandas e as lutas sociais de Passarinho para a sociedade e o poder público. Nos últimos cinco anos, percebemos o crescimento político do grupo com seus cantos e sua forma de fazer política, e essa parceria tem contribuído para a nossa missão e luta”, disse.


Sobre as expectativas de futuro, o Grupo vê um ano difícil de retrocessos de direitos para as mulheres, mas a esperança e perseverança são motores para a luta. “Esse ano queremos ainda fazer uma audiência pública para dialogar com os gestores sobre a questão da educação, saúde e mobilidade. A luta cresceu, porque a comunidade cresceu e crescemos juntas com a comunidade. Hoje temos mulheres de todas as idades, de 17 à 74 anos, e cada vez chegam mais nos procurando, e isso nos fortalece”, contou Edcléa. Para Tatiane Silva, 36 anos, que há 7 anos é integrante do Espaço, é um orgulho fazer parte do grupo. “Fazer parte do grupo que tem mudado muito a cara de Passarinho, é uma alegria. Nossas companheiras estão sempre lutando pela melhora da comunidade, por escola, creche, transporte, lixo, habitação, água. Então é uma coisa que você tem orgulho de vestir a camisa. Hoje moramos eu, minhas filhas e meu neto. É muito bom ver um grupo que se preocupa com o crescimento da comunidade, mesmo sendo um trabalho de formiguinha. Tem coisa que você para, olha e vê que foi o grupo que fez. Tirou muita “dona” de casa de dentro de casa, e se reconheceram como artesãs, feministas, assumiram sua cor de pele como negras. Isso é muito importante”, relatou.


A partir de 2008, o grupo foi tomando corpo e desenvolvendo cada vez mais atividades políticas, como o Bloco Sou Gorda, mas eu Pulo, refletindo sobre a gordofobia e os estereótipos dos corpos das mulheres, as comemorações do dia da mulher, a identidade da mulher negra com o Beleza Negra e o desenvolvimento do bairro. Até o ano de 2015, algumas famílias ainda não tinham a posse da própria residência reconhecida pelo poder público, a exemplo da ocupação Vila Esperança. Essas tensões urbanas proporcionaram a união dos moradores e moradoras. O resultado foi a organização do movimento Ocupe Passarinho, que, inspirado no Ocupe Estelita, passou a mobilizar o bairro pelo direito á moradia, segurança, saúde e habitação, com um protagonismo feminino do Grupo Espaço Mulher e apoio de diversas organizações sociais.

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