Escola Feminista no Sertão do Pajeú inicia seu primeiro módulo

Com foco nas discussões sobre os desafios da região, a partir das dimensões   de gênero, raça e classe, a  Escola Feminista inicia seu percurso pedagógico com seu olhar para o território do Pajeú

Por Ana Roberta Amorim, CMN

O processo de aprendizado coletivo, ainda mais quando acontece com a união de mulheres, é poderoso e transformador. Discutir sobre as relações sociais de gênero, raça e identidades, a partir de uma perspectiva feminista e antirracista, é o objetivo da Escola Feminista, metodologia construída pela Casa da Mulher do Nordeste e que inicia, neste fim de 2023, o primeiro módulo no Sertão do Pajeú.

Entre os dias 5 de 7 de dezembro, na cidade de Afogados da Ingazeira, a CMN realizou o primeiro encontro com cerca de 30 mulheres participantes dos projetos aprovados no edital Caatinga Viva, uma parceria entre a Casa e o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN). Com o tema Identidade e Ancestralidade, foram debatidas e refletidas as memórias e histórias dessas mulheres, partindo das suas realidades e vivências.

A dinâmica começou com um momento de conexão consigo mesma e com o ambiente, utilizando técnicas de meditação, respiração e movimento de corpo. Depois, aconteceu o reconhecimento de si e das companheiras presentes, a partir de uma espécie de censo, para a construção do perfil do grupo, com a autoidentificação da raça, idade, território, acesso a tecnologias de convivência com o Semiárido e outros aspectos.

“O objetivo desse primeiro módulo foi trazer a discussão das identidades delas enquanto mulheres, negras, rurais. Fazer um resgate da ancestralidade em um trabalho de memória, ressaltando as pessoas referência em suas vidas”, explica Graciete Santos, presidenta da Casa da Mulher do Nordeste e educadora da Escola Feminista .

As manifestações do racismo, do patriarcado e outras formas de opressão, assim como a reprodução dessa cultura passados por gerações, foram alguns dos temas discutidos nos três dias. Em uma dessas dinâmicas, que envolveu a exibição de fotos e vídeos, Andréia Carla da Conceição Nogueira, participante do projeto Quilombolas Beneficiando a Produção Agroecológica e Gerando Renda na Região do Pajeú, selecionado pelo edital Caatinga Viva, do quilombo Sítio São Luís, da comunidade de Mirandiba, contou que dois momentos que a emocionaram bastante.

“Na discussão sobre racismo, teve uma hora que apareceu a foto de uma criança lavando o chão. Aquilo me tocou profundamente porque me lembrou da minha infância. Eu fui uma criança que passou por trabalho infantil, mas não me reconhecia naquela situação, achava que era normal. Com a Escola Feminista, percebi que o que faziam comigo era errado”, relembra. “Em outro momento, durante o vídeo Vida Maria, que mostra uma mulher ensinada desde a infância a fazer os trabalhos domésticos e, quando fica adulta, repete o mesmo comportamento com suas filhas mulheres (poupando os filhos homens), eu também me reconheci, percebi que fiz a mesma coisa com as minhas filhas. A gente reproduz algumas coisas sem perceber, mesmo não fazendo sentido ou prejudicando a nós mesmas. Mas nunca é tarde para mudarmos esses pensamentos”, refletiu Andreia.

Olhar para o Sertão do Pajeú

Como explica Graciete Santos, a Escola Feminista é um “um processo de formação contínua, que parte da dimensão individual e o fortalecimento da auto-organização das mulheres. Se reconhecer como mulheres em suas diversidades e diferenças, e sobretudo fortalecer suas capacidades para intervir e mudar suas realidades  em seus territórios, visando a transformação e ocupação de espaços políticos”.

Dessa forma, discutir sobre as tensões e desafios do território do qual fazem parte também é um ponto importante a ser levado em consideração nas dinâmicas e atividades da Escola Feminista. Por isso, o Sertão do Pajeú foi objeto de análise e reflexão nos três dias de encontros.

Entre as propostas sugeridas às mulheres, estava olhar para o Pajeú sob a perspectiva dos temas trazidos nos aprendizados da oficina – ou seja, do antirracismo e do feminismo –, além de outros como saúde, educação, espaços de comercialização das produções agroecológicas, a fim de estimulá-las a refletir como as questões que desafiam a região podem ser enfrentadas a partir dos projetos que as mulheres fazem parte.

No último dia, foram organizados grupos que expuseram algumas ideias reunidas numa forma de apresentação e na construção de um Mapa do Território, no qual elas localizaram os municípios de onde vêm e elencaram os que consideram os principais desafios ocorridos em cada um deles. Além do racismo e do patriarcado, que coloca obstáculos na garantia de direitos das mulheres e pessoas negras, foram trazidos pontos como desmatamento do bioma Caatinga, falta de tecnologias de acesso à água, acesso a equipamentos sociais e culturais como delegacias da mulher, hospital, cinema, entre outros. Ao final, os grupos sugeriram soluções a partir dos projetos dos quais participam.

“O meu grupo teve a ideia de fazer uma audiência pública para chamar as autoridades e discutir principalmente temas sobre o meio ambiente. Vemos muito desmatamento, queimadas, mas não sem punição para quem pratica. A gente acha que uma audiência junto com as comunidades e as autoridades responsáveis seria um bom momento para falar sobre isso”, diz Andreia.

A Escola Feminista  é uma iniciativa da Casa da Mulher do Nordeste, prevista no projeto Caatinga Viva, que acontece em parceria com o ISPN, responsável pela execução do projeto estratégico apoiado pelo PPP-ECOS. O projeto também tem a parceria do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), no âmbito do Projeto Operacional do Small Grants Programme no Brasil, financiado pelo Fundo para o Meio Ambiente Mundial – GEF. Em 2024, haverá mais quatro módulos.

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