Mudam os tempos, mas a realidade de opressão de gênero e raça das mulheres negras permanece
No próximo domingo, 25 de julho, éo Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. Uma data que objetiva alertar a sociedade para as condições de opressão de gênero e raça em que vivem as mulheres negras. Um artigo da Maria Noelci Homero - Coordenadora da Regional Sul da Rede Feminista de Saúde e daONG Maria Mulher – Organização de Mulheres Negras - resgata algumas informações preocupantes nesse sentido. Ela destaca que neste inicio de século, as mulheres negras ainda carecem de políticas públicas em relação à saúde (tratamento e identificação de doenças específicas); à saúde mental; ao tratamento de DST/HIV/AIDS; à violência sexual e racial; ao trabalho; à educação e a habitação. “Além das violências já citadas, as mulheres negras são agredidas pela violência ideológica que se manifesta na negação da sua identidade, sofrendo a imposição dos padrões estéticos brancos”, analisa, complementando: “Somos vítimas de exploração sexual e comercial da nossa imagem, principalmente nos meios de comunicação. As adolescentes negras são vítimas de exploração, servindo para nutrir o turismo sexual e tráfico de mulheres”, analisa.
O texto de Maria Noelci também retoma o diálogo sobre as condições do mercado de trabalho para as mulheres negras, que detêm as maiores taxas de desemprego. Elas chegam a receber rendimentos 55% menor que os salários das mulheres brancas e constituem a maioria das trabalhadoras do mercado informal. Além disso, exercem as ocupações consideradas de menor qualificação, como o de trabalhadora doméstica.
Na esfera de representação política, elas estão longe de atingir os espaços institucionais de poder. “A mulher negra, na sua grande maioria, está fora da escola, sem nenhum acesso à informação tecnológica; freqüentam escolas públicas sucateadas e que não têm o menor compromisso com a diversidade cultural e com a promoção da igualdade de direitos”, diz Maria Noelci.
Complementando as informações trazidas pelo artigo mencionado acima, a educadora do Programa Gênero e Economia da Casa da Mulher do Nordeste (CMN), Glaucia Maria, que também é uma mulher negra, afirma que, apesar do cenário de desigualdades ainda presente nos dias atuais, vale salientar os avanços conquistados, a partir da luta dos movimentos de mulheres negras e de segmentos sociais aliados. “Exemplos disso são a ampliação do controle social das políticas públicas, o fortalecimento da identidade racial negra nos espaços de representação da sociedade e a articulação das dimensões de gênero, raça e classe como estruturantes nas intervenções para a inclusão social efetiva, justa e igualitária”.
E a Casa da Mulher do Nordeste, o que tem a ver com isso?
A coordenadora geral da Casa da Mulher do Nordeste (CMN), Graciete Santos, afirma que a organização está comprometida com as lutas das mulheres negras. Ela lembra que o perfil do público atendido pela instituição é de mulheres pobres, que vivem em situação de exclusão e que são, em sua maioria, negras. “Há um reconhecimento da CMN, enquanto instituição feminista, de que a questão racial é estruturante para uma análise sócio-econômica e política do país. Temos o compromisso de trabalhar no nosso cotidiano a questão das desigualdades de gênero, mas também as de raça. É impossível fazer uma intervenção sem considerar que o nosso país é historicamente racista e formado a partir de uma matriz escravocrata e patriarcal, que articulada a um modelo de produção capitalista, estrutura as relações de trabalho baseadas na exploração e opressão do trabalho das mulheres, sobretudo das negras. Não podemos deixar de lembrar que o trabalho doméstico tem suas raízes nessa matriz”, explica.
Graciete destaca, ainda, que depois da “falsa abolição”, foram as mulheres negras que saíram às ruas para atuar no comercio informal e vender, por exemplo, seus doces, para levar alguma renda que garantisse a sobrevivência da família. “Quando se trabalha objetivando a superação das desigualdades de gênero e raça com foco na economia, é fundamental reconhecer o papel histórico da mulher negra na produção econômica do Brasil.Também é necessário compreender que as desigualdades sociais, econômicas e políticas existentes na nossa sociedade se estruturam na articulação das dimensões de gênero, raça e classe. A partir dessa perspectiva, entendemos porque são as mulheres negras as mais pobres, as que recebem os menores salários e estão em condições mais precária s de trabalho .
Internamente - A coordenadora geral da CMN também reflete sobre a importância da organização estar incluindo esse debate nos processos internos de formação da equipe, assim como nas práticas educativas direcionadas ao público atendido. “É preciso que a gente conheça a história e construa uma análise crítica da realidade, para que possamos contribuir com os grupos com os quais trabalhamos. Sabemos que um dos nossos grandes desafios é contribuir mais na produção de conhecimentos sobre esse assunto, e acreditamos que estamos trabalhando para avançar ainda mais”.
Outro ponto importante da organização, destacado por Graciete, é a valorização das mulheres negras como sujeitos políticos de suas lutas. "Temos investido na ampliação da participação de mulheres negras na CMN em espaços estratégicos de decisão e de produção de conhecimento. Temos que fortalecer ações afirmativas de modo a responder de imediato a algumas injustiças e desigualdades existentes, assim como afirmar as políticas estruturantes no sentido de superação e reparação dessas desigualdades .”
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