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 30 anos da Casa da Mulher do Nordeste

Um caminho percorrido com muita coragem e desejos

 

12/08/2010 - Em um cenário bastante adverso para as organizações da sociedade civil no Brasil - CPI das ONGs, redução do apoio da cooperação internacional, criminalização dos movimentos sociais e outros - é animador celebrar trinta anos de existência e resistência. Porém, mais interessante é observar a aprendizagem construída nesse tempo, e a capacidade de superação dos problemas. Para entender como isso se dá dentro da Casa da Mulher do Nordeste, a Assessoria de Comunicação da CMN conversou com a coordenadora geral da instituição, Graciete Santos.

AsseCom CMN - Que conquistas e desafios você percebe nesses 30 anos da Casa da Mulher do Nordeste, quando olha para a missão institucional, para o projeto político da CMN?

Graciete - Uma marca desses 30 anos é que a CASA,mesmo com todas as mudanças que ocorreram na conjuntura e com a saída de pessoas, não perdeu o seu foco, que é a emancipação das mulheres através da autonomia econômica. Avançamos nesse sentido e aprofundamos nossa identidade, refletindo sobre nossas práticas.  Afirmamos, hoje, que somos uma organização feminista e, portanto, nos desafiamos a pensar em estratégias de enfrentamento e superação da pobreza das mulheres. Não é só acreditar que as mulheres são arrimos de família, ou que são melhores pagadoras, ou, ainda, que as mulheres pensam nas famílias. É levar essa discussão do enfrentamento da pobreza de maneira mais aprofundada e crítica, considerando a interrelação entre as dimensões de gênero, classe e raça que estruturam as desigualdades sociais. Portanto, queremos problematizar a idéia de que são  as mulheres que sabem gerir a pobreza e a miséria.   Dessa forma, no momento que aprofundamos essa discussão, dizemos: queremos muito mais do que gerar renda.

AsseCom CMN – Mas, então, o que a CASA quer?

Graciete – A gente quer um reconhecimento de um saber construído, mesmo com toda essa divisão social e sexual do trabalho. O que nós dizemos é que, o que as mulheres fazem no espaço doméstico, na sua casa, no seu quintal, é muito importante. Isso tem um valor social e um valor econômico que precisam ser reconhecidos.  A gente precisa aprender com isso,  precisa reconceituar, valorizar e politizar o trabalho desenvolvido pelas mulheres.  Essa é uma questão para a qual nos desafiamos. A CASA definiu que o seu trabalho é com as mulheres, com as mais pobres, que são também as negras, que estão no trabalho da “informalidade”, da pequena produção, que ocorre em condições precárias, seja pela falta de  instrumentos adequados de trabalho, tecnologia, seja pelo pouco capital. Então, quando a gente define que é com esse publico que a gente quer atuar, para discutir trabalho, cidadania e renda, é uma coisa que parece meio contraditória, não é?  Porque como pensar nisso se as mulheres não têm nem as condições básicas. E esse é o desafio.

 

AsseCom CMN – Explique melhor

Graciete - A economia está sempre relacionada ao monetário, ao mensurável, mas e os outros resultados? Entendo que avançamos metodologicamente e politicamente, porque resolvemos, depois de muitos anos, reafirmar esse compromisso e nos aprofundar, perguntando: o que é mesmo que isso significa dentro da prática feminista? O que a gente quer mesmo com isso?  A gente quer só que as mulheres tenham uma renda, ou a gente quer mais do que isso? E o que nós queremos é que as mulheres se fortaleçam como sujeitos, que definam sobre sua vida afetiva, sobre seu projeto econômico,  participem da vida política,  acessem direitos  e sejam felizes.

AsseComCMN – Algum outro avanço?

Graciete - Outra questão é relacionar isso com o tema do trabalho. É ressignificar esse trabalho, ampliando o seu sentido, desconstruindo papéis sociais, que naturalizam o que as mulheres fazem, é romper com a divisão sexual do trabalho. É preciso fazer com que as próprias mulheres reconheçam essas coisas como trabalho e que a sociedade valorize isso.

Outra coisa importante é quando a CASA define que precisa trabalhar nesses dois campos de intervenção: o rural e o urbano. A Casa da Mulher define estrategicamente  ter uma atuação territorial, ou seja, não é uma atuação isolada, mas uma atuação numa região. Então, a decisão por trabalhar a realidade das mulheres no mundo  rural foi algo que marcou, inclusive do ponto de vista metodológico, outro ciclo para  a CMN.  Decidimos produzir conhecimento nesse espaço, experimentar  e aprender com as mulheres.

AsseCom – Algo mais?

Graciete - Uma coisa também interessante  é quando a gente define que dentro desse espaço rural, dentro das práticas, a agroecologia é o norte. Esse é outro campo que se abre para nós. O que isso tem a ver com as práticas feministas? O que se aproxima ou se distancia? O que precisamos reafirmar?  O que precisamos romper ? Porque tudo isso volta para aquela questão da relação da mulher com a biodiversidade, determinando às mulheres a responsabilidade da vida. Não queremos reforçar essa idéia de uma essência feminina, mas, sim, uma crítica feminista sobre essas questões.   (Clique aqui para ver mais sobre a relação da CMN com esse tema da biodiversidade).

Outro questão que a gente também identifica como avanço  nesses últimos anos é que as ações estratégicas da CMN,articulação e participação política,  formação política e econômica e assessoria técnica social estão articuladas, não se dissociam. Esse foi outro salto do ponto de vista de como a gente pensa a nossa metodologia.

AsseCom CMN – No que o trabalho em rede, algo muito forte na metodologia da CASA, possibilitou esses avanços que você citou na sua fala?

Graciete – Isso é uma coisa que a gente vem trabalhando há anos, no processo de juntar mulheres para discutir sobre economia, discutir as dificuldades de cada uma, na vida  produtiva  e na vida reprodutiva, porque elas devem andar juntas.  Aí, a gente começou a pensar que tudo isso precisava ser pensado do ponto de vista de uma ação política, de incidência, para que trouxesse avanços para essa dinâmica. Então, dessa ação de juntar, de trocar experiências, de intercambiar – veio a ideia da rede, de algo mais articulado. Surge a Rede de Mulheres Produtoras do Nordeste. Nessa questão, a CASA teve e tem um papel muito forte, como uma organização que fomenta, que anima, que busca apoio, que oferece assessoria técnica à produção e formação política, que consegue politizar esses espaços. Como eu vou discutir as políticas publicas que estão ligadas ao meu campo de forma isolada? O legal é discutir essas questões com grupos que vivem em espaços diferentes, mas têm desafios comuns. Assim surgiu essa e outras redes.

AsseCom CMN – Dentro desse trabalho em rede são percebidos avanços?

Graciete - Inicialmente, a CASA tinha um papel muito forte na gestão dessas  redes. Antes, as redes faziam parte de uma estratégia metodológica da instituição, hoje, elas são uma ação de auto-organização das mulheres. Já no começo, quando discutíamos isso, a gente se questionava: como é que podemos fortalecer a autonomia das mulheres? Isso porque nós somos uma organização de apoio e assessoria a esses grupos, para que eles se fortaleçam, mas a gente tem um tempo nisso. Então, como podemos fortalecer processos que sejam autônomos, que as mulheres depois possam buscar apoios por elas mesmas, buscar políticas públicas, fortalecer o movimento organizado de mulheres?

Aprendemos muito, e uma questão principal é que nos arvoramos a articular uma ação regional, sem antes ter uma base forte. Percebemos no processo, no entanto, que devemos fortalecer primeiro as bases e redes locais. Hoje, identificamos duas bases consolidadas que é  a  Rede de Mulheres do Pajéu, em Pernambuco,  e  a Rede Bahia, que têm uma agenda própria, que se organizam para participar de feiras, que exercitam os princípios da economia solidária e da autogestão. A Rede Nordeste articula mais três estados, Maranhão, Piauí e Paraíba. Hoje, a CASA tem um papel de dar um suporte financeiro, um apoio na mobilização e articulação, de contribuir com algumas discussões, mas o sujeito político são as mulheres, é a rede.

AsseCom CMN - Olhando os 30 anos, a CASA tem muito a comemorar?

Graciete – Temos muito que comemorar. Nossa resistência e persistência . Resistir diante dessa crise que as ONGs passam no Brasil e no mundo  é algo muito forte. A CASA, hoje, tem bases sólidas, apesar de uma equipe muito jovem.  Outra conquista é essa coisa do aprender fazendo.  Se a CASA fechar hoje, a ação continua. Continua através da auto-organização das mulheres em rede; dos conhecimentos construídos; das práticas agroecológicas e de economia solidária que  não permitam a violência contra as mulheres, que reconheçam as mulheres como sujeitos e não só como ajudantes; de  relações mais igualitárias. Penso que a gente deixa  essas marcas nos espaços onde atuamos.

AsseCom CMN - E o que falta para que a CASA atinja os seus objetivos?

Graciete - Faltam melhores condições para que a gente possa fazer mais. Hoje, a gente tem certeza da importância do nosso trabalho, do quanto o que a gente faz ainda é importante que continue sendo feito. Cada vez mais, nós estamos qualificando a nossa capacidade técnica, a nossa critica sobre a realidade na qual atuamos. Então, o que falta são melhores condições. Estou me referindo a recursos materiais, a  ampliação da equipe . A gente sabe o quanto se avançou do ponto de vista das políticas públicas, mas a gente não as tem implementadas, então, ainda tem muito o que ser feito.  A gente precisa ter as condições necessárias para  desenvolver o nosso trabalho, que está pautado em  processos  e não em ações imediatas. Os resultados do nosso trabalho não são imediatos

AsseCom CMN -  Um desejo.

Graciete - O que desejo é que a gente possa junto com outras organizações – acho que a gente não pode fazer isso de forma isolada – encontrar caminhos para a sustentabilidade do nosso campo político.  Os nossos temas não são tão fáceis de serem  aceitos pelos governos, pela cooperação internacional e nem pelo setor privado.Então, a gente ainda tem muito que justificar,  muito que convencer e qualificar nossos argumentos.  Isso é mais fácil, penso eu, no coletivo, pois ficamos mais fortes. O desafio é  para a Casa da Mulher do Nordeste,   mas é  também para tantas outras organizações do nosso campo político. Precisamos  identificar nossas identidades e  juntar nossas forças para ter um impacto maior, ter um resultado maior, influenciar e transformar a sociedade.*

 

 

Veja também:

 

A CASA e o fortalecimento das Mulheres do Nordeste

Casa da Mulher do Nordeste analisa que perdas da biodiversidade afetam primeiramente as mulheres  

 

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